quinta-feira, 29 de abril de 2010
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Análise
A fotografia feita no Recife por volta de 1860. Na época era preciso esperar no mínimo um minuto e meio para se fazer uma foto. Assim, preferia-se fotografar as crianças de manhã cedo, quando elas estavam meio sonolentas, menos agitadas. O menino veio com a sua mucama, enfeitada com a roupa chique, o colar e o broche emprestado pelos pais dele. Do outro lado, além do fotógrafo Villela, podiam estar a mãe, o pai e outros parentes do menino. Talvez por sugestão do fotógrafo, talvez porque tivesse ficado cansado na expectativa da foto, o menino inclinou-se e apoiou-se na ama. Segurou a com as duas mãozinhas. Conhecia bem o cheiro dela, sua pele, seu calor. Fora no vulto da ama, ao lado do berço ou colado a ele nas horas diurnas e noturnas da amamentação, que os seus olhos de bebê haviam se fixado e começado a enxergar o mundo. Por isso ele invadiu o espaço dela: ela era coisa sua, por amor e por direito de propriedade. O olhar do menino voa no devaneio da inocência e das coisas postas em seu devido lugar.
Ela, ao contrário, não se moveu. Presa à imagem que os senhores queriam fixar, aos gestos codificados de seu estatuto. Sua mão direita, ao lado do menino, está fechada no centro da foto, na altura do ventre, de onde nascera outra criança, da idade daquela. Manteve o corpo ereto, e do lado esquerdo, onde não se fazia sentir o peso do menino, seu colo, seu pescoço, seu braço escaparam da roupa que não era dela, impuseram à composição da foto a presença incontida de seu corpo, de sua nudez, de seu ser sozinho, da sua liberdade.
O mistério dessa foto feita há 130 anos chega até nós. A imagem de uma união paradoxal mas admitida. Uma união fundada no amor presente e na violência pregressa. A violência que fendeu a alma da escrava, abrindo o espaço afetivo que está sendo invadido pelo filho do senhor. Quase todo o Brasil acabe nessa foto.
Luis Felipe de Alencastro
História da Vida Privada no Brasil, vol. 2, p. 439-440
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Filme: Ponto de Mutação
pensamento mecanicista - parte 2
o modelo do cosmos - parte1
Discussion of Descartes
Metáfora do Relógio
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
sábado, 11 de abril de 2009
Nós Que Aqui Estamos por Vós Esperamos

Por Lucas Murari30/07/2007
"Estilo grandioso e viciante marca este ótimo filme de Marcelo Masagão."
Primeiro longa-metragem de Marcelo Masagão, um dos fundadores do cultuado Festival do Minuto. Masagão já era figura conhecida no cinema experimental brasileiro, gênero de grande destaque em terras tupiniquins. Estilo já utilizado por Mário Peixoto em seu grande e poético filme Limite (1930), passando por vários outros grandes mestres como Júlio Bressane no seu conturbado O Anjo Nasceu (1969) e A Idade da Terra (1980), de Glauber Rocha. Nós que Aqui Estamos Por Vós Esperamos é um filme de certa forma documental, tal como Ilha das Flores de Jorge Furtado. Ambos se apropriaram de uma linguagem ficcional (o filme de Furtado se inicia com a frase “Esse não é um filme de ficção”) e com isso nos remete a películas de caráter real e informativo. Conquanto não é isso que vemos: os dois se utilizaram do modelo ficcional com personagens, atores e ambientação. Mesmo com tudo isso, o gênero documental sobressai aos demais e torna os filmes completamente originais e descomunais. Talvez o melhor estereótipo para Ilha das Flores e Nós que Aqui Estamos Por Vós Esperamos seja “documentários-experimentais-ficcionais.”
O filme retrata a morte no século XIX, construído todo com imagens de arquivo e sem nenhuma fala ou narração, apenas música, imagem e frases que vão aparecendo na tela. Não há nenhum tipo de narrador, apenas a reunião de figuras e palavras que se encaixam nos fatos históricos reais e ficcionais. As imagens são documentos históricos que relatam a vida de pessoas anônimas em seu cotidiano e a partir dessas, o diretor dá nova existência, profissões, nomes e atividades aos seres retratados. Filmagens amadoras, reportagens, fotos antigas, clássicos do cinema (George Méliès, Chaplin, Buñuel) são usados como fundo de pano para esta nova etapa que leva o espectador para o mais sangrento e conturbado século da humanidade.
Poucas vezes vi um documentário se aproximar tanto de uma poesia como neste filme. O espectador vai do riso ao choro em poucos instantes com toda uma sensibilidade e humanismo que só Marcelo Masagão sabe passar. Uma das características de quase todos os seus filmes é seu caráter apolítico, e neste primeiro longa-metragem o diretor, roteirista, pesquisador e editor retratou em seus 73 minutos de filmes grande parte dos acontecimentos históricos do século passado tais como o movimento feminista, o “crash” de 29, a Segunda Guerra Mundial, o populismo, entre vários outros importantes fatos históricos.
Institucional, surreal, apaixonante são adjetivos pequenos para o filme, cada pessoa tem uma opinião diferente sobre ele. O que acho mais curioso foi o modo como foi feito “Fiz este filme em minha favelinha. É o nome que dou para o meu dual Pentium 240 MHZ com 128 de RAM, 28 GB de disco (1998)” diz o diretor que fez o filme em sua própria casa comprando as imagens via Internet e montando numa ilha de edição digital (Avid) para depois ser kinescopado para película. O filme foi realizado com baixo custo (R$ 140 mil ao todo, sendo que R$ 80 mil foram destinados a pagamento de direitos autorais) o que se tornou uma espécie de manifesto de Masagão que, inspirado pelo movimento dinamarquês Dogma 95, passou a proclamar que o futuro do cinema brasileiro está nas produções de baixo orçamento que prima mais pela capacidade do realizador do que por recursos técnicos, o que no fundo nada mais é do que uma releitura do Cinema Novo e todos os movimentos em que ele foi inspirado.
O nome vem do letreiro de um cemitério localizado na cidade de Paraibuna, no interior do Estado de São Paulo, onde se lê, por extenso, "nós que aqui estamos por vós esperamos". Outra grande qualidade do filme é a trilha sonora. Só se ouve música, efeitos sonoros e silêncio. Os efeitos sonoros são de André Abujamra, e Win Mertens assina a trilha experimental e viciante. Na opinião deste que vos escreve, é o melhor filme do diretor, bem cativante, um retrato de respeito ao século passado, filmado em um estilo jamais visto antes, película reflexiva e poética.
domingo, 21 de setembro de 2008
Uma imagem, um convite para pensar...

A força que ergue este corpo vem da alma. O menino se põe forte e se mistura com a secura da paisagem resistindo as intempéries dessa natureza desafiadora. Está de pé, o fotografo clica no momento exato de expor a sua coragem humana no enfrentamento das condições mais adversas em busca da sobrevivência e revela nessa foto a grandeza e a altivez que está exposta no corpo ressequido, porém vivo.
Moesio Belfort
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